Por Eça de Queirós (1900)
Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o Bento, acabava de se vestir para montar a cavalo, espairecer num galope pelos caminhos de Valverde - quando o pequeno da Críspola já estabelecido na Torre como pajem, de fardeta de botões amarelos) bateu esbaforidamente à porta. - Era uma senhora que parara ao portão, dentro duma carruagem, pedia ao Fidalgo para descer...
- Não disse o nome'?
- Não, senhor. E uma senhora magra, puxada a dois cavalos, com redes...
A prima Maria! Com que alvoroço correu, agarrando no cabide do corredor um velho chapéu de palha! E embaixo foi como se contemplasse a Deusa da Fortuna na sua roda ligeira.
- Oh prima Maria, que surpresa!... Que felicidade!
Debruçada da portinhola da carruagem (a caleche azul da Feitosa), D. Maria Mendonça, com um chapéu novo enramalhetado de lilases, desculpou atrapalhadamente e rindo o seu silêncio. Recebera a carta do primo muito atrasada... Sempre o fatal carteiro, trôpego e bêbedo... Depois uns dias muito atarefados em Oliveira com a Anica, que preparava para o inverno a casa da rua das Velas.
- E finalmente, como devia uma visita em Vila-Clara à pobre Venância Rios, que tem estadodoente, achei mais simples e mais completo parar na Torre... E então?
Gonçalo sorria, embaraçado:
- Então, nada de grave, mas... É que desejava conversar consigo... Por que não entra?
Abrira a portinhola. Ela preferia passear na estrada. E ambos se encaminharam para o velho banco de pedra que os álamos abrigavam em frente ao portão da Torre. Gonçalo sacudiu com o lenço a ponta do banco.
- Pois, prima Maria, eu desejava conversar... Mas é difícil, tão difícil!... Talvez o melhor sejaatacar a questão brutalmente.
- Ataque.
- Então lá vai!... A prima acha que eu perco o meu tempo se me dedicar à sua amiga D. Ana?
Pousada de leve à borda do banco, enrolando atentamente a seda preta do guarda-solinho, Maria Mendonça tardou, murmurou:
- Não, acho que o primo não perde o seu tempo...
- Ah! acha?
Ela considerava Gonçalo, gozando a sua perturbação e ansiedade.
- Jesus, prima!... Diga alguma coisa mais!
- Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe declarei em Oliveira. Ainda sou muito nova para andarcom recadinhos de sentimento. Mas acho que a Anica é bonita, é rica, é viúva...
Gonçalo arrancou do banco, erguendo os braços, em desolação. E, como D. Maria também se erguera, ambos seguiram pela tira de relva que orla os álamos. Ele quase gemia, desconsolado:
- Ora, bonita, viúva, rica... Para conhecer esses grandes segredos não a incomodava eu,prima!... Que diabo! seja boa rapariga, seja franca! A prima sabe, decerto já ambas conversaram... Seja franca. Ela tem por mim alguma simpatia?
D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guarda-solinho o trilho amarelado da relva:
- Pois está claro que tem...
- Bravo! Então, se daqui a um tempo, passados estes primeiros meses de luto, eu medeclarasse, me...
Ela dardejou a Gonçalo os espertos olhos:
- Santo Deus, como o primo por aí vai, a galope... Então é uma paixão?
Gonçalo tirou o seu velho chapéu de palha, passou lentamente os dedos pelos cabelos. E num imenso e triste desabafo:
- Olhe, prima! É sobretudo a necessidade de me acomodar na vida! Pois não lhe parece?
- Tanto me parece que lhe indiquei o bom pouso... E agora adeus, passa das cinco horas. Nãome quero demorar por causa dos criados.
Gonçalo protestou, suplicou:
- Mais um bocadinho!... E tão cedo! Só outra coisa, com franqueza. Ela é boa rapariga?D. Maria voltara, ao cabo do renque de álamos, recolhendo à caleche:
- Uma pontinha de gênio, para animar a existência. Mas muito boa rapariga... E uma dona decasa admirável! O primo não imagina como anda a Feitosa. A ordem, o asseio, a regularidade, a disciplina... Ela olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!
Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:
- Pois se daqui a um ano se realizar o grande acontecimento hei de gritar por toda a parte quefoi a prima Maria que salvou a Casa de Ramires!
- Por isso eu trabalho, para servir o brasão e o nome! - exclamou ela, saltando ligeiramente paraa caleche, como se fugisse, arremessada aquela clara confissão.
O trintanário trepara à almofada. E enquanto os cavalos folgados largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:
- Sabe quem encontrei em Vila-Clara? O Titó!
- O Titó?...
- Chegou do Alentejo, vem jantar consigo. Eu não o trouxe na carruagem por decência, para onão comprometer...
E a caleche rolou - entre os risos e os doces acenos com que ambos se alagavam, naquela nova concordância mais calorosa duma conspiração sentimental.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.