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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Em Constantinopla, «está-se com a cabeça perdida»: o ministério, a câmara, o sultão, os softas, tudo está numa excitação aguda de desconfiança. O público não confia nem nos generais, nem no ministro da Guerra; diz-se que o ministério, que sabe os podres, não confia no exército, que nem está armado nem equipado, nem preparado, e que a passagem do Danúbio pelos Russos será o começo da catástrofe; o sultão vive num estado de excitação cerebral, tanto mais perigosa que as grandes doenças nervosas são hereditárias na família dos Osmanlis; e, quando soube da queda de Ardahan teve um ataque violento de raiva epiléptica; percorria as salas, dando gritos, rojava-se e dilacerava o fato. Os softas, isto é, a parte inteligente, activa, empreendedora da população, preparam-se, evidentemente; têm feito compras consideráveis de armas, especialmente revólveres; já têm organizado, como devem saber pelo telégrafo, manifestações e esboços de sedições. Isto obrigou o Governo a declarar Constantinopla em estado de sítio: o fim desta medida é sobretudo apreender as armas que os softas têm ultimamente adquirido; mas, num país muçulmano, este fim é difícil de atingir; as armas são guardadas ou nas mesquitas ou nos quartos das mulheres, e como estes dois lugares são para o muçulmano invioláveis a apreensão das armas é impossível. Ora é evidente que a hostilidade dos softas não é só dirigida contra os ministros, mas contra o próprio sultão – de facto contra a dinastia; e, portanto, é fácil de ver que perigo corre a família dos Osmanlis, e com ela o velho regime turco.

A Grécia não podia deixar, no meio de todas as amarguras por que passa a Turquia, de vir ajuntar a sua gota de fel. Em Atenas repetem-se as manifestações belicosas contra a Turquia, e é de crer que o novo Governo, formado de elementos favoráveis à guerra e sob a pressão de um forte sentimento nacional, se lance na contenda e aproveite o grande embaraço turco para ajustar certas contas históricas com a Porta. Assim, por todos os lados, a situação da Turquia se escurece; é este o momento que se escolheu para dar ao sultão um sobrenome dinástico sabem que nome se adoptou? O Vitorioso!

Os Russos, por seu lado, acumulam, no Danúbio uma invasão esmagadora: parece que o

plano é fazer passar o Danúbio, em vários pontos, a todo o exército, e ferir simultaneamente um golpe irresistível. A demora das operações não tem sido causada somente pelas chuvas embaraçosas e pelas inundações teimosas; tem tido a sua razão no desejo de se preparar com elementos tão completos e uma organização tão vigorosa que a campanha não seja depois senão uma série de fáceis vitórias. Estas vitórias, verdade seja, o público russo começa a impacientar-se por as não ver realizadas; e todo o estado-maior e a corte começam também a sentir a necessidade de as não protrair mais; e sabem porquê? Porque os médicos as julgam indispensáveis à saúde do imperador. Desde a sua volta a Sampetersburgo, o imperador Alexandre sofre de uma grande irritabilidade nervosa e de uma espécie de inquietação alucinada, que enche de susto toda a corte. Tem durante todo o dia uma impaciência febril por telegramas; exige que os mais insignificantes detalhes do que se passa no exército lhe sejam telegrafados de minuto a minuto, exprime desconfianças injustas e mostra-se sem razão descontente com a marcha da guerra. Os médicos julgam que só uma boa vitória russa poderá acalmar esta excitação, e não será de admirar que os Russos apressem os seus movimentos, porque (o que não tem nada de estranho num país em que o imperador é tudo, e o resto nada) os planos do estado-maior devem, de ora em diante, ter em vista as receitas dos médicos.

O que eu ainda não pude tirar a claro é qual é o verdadeiro sentimento do povo russo. Alguns correspondentes dizem que a Rússia considera esta guerra como santa, e arde no mais fanático entusiasmo; outros pintam o povo russo como extremamente descontente, indiferente à guerra, e pensando que, quando tudo está por reformar na Rússia, é insensato querer ir fora reformar a Turquia.

Pelo que tenho ouvido a alguns russos, não me parece que o entusiasmo público seja grande. As doações espontâneas para a guerra não significam nada: as que vêm das municipalidades são quase impostas à força pelo Governo, as que vêm dos particulares são um meio astucioso de obter mercês, condecorações e privilégios.

A guerra foi declarada por três motivos: primeiro, para satisfazer as classes militares (tão preponderantes na Rússia), por uma campanha de conquista; segundo, para evitar a bancarrota e salvar as dificuldades financeiras por estes empréstimos feitos em nome da guerra santa; terceiro, porque o Governo turco concedeu uma constituição.

(continua...)

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