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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Logo que o Conde entrou na Câmara, fez o seu casamento tão rico e se estabeleceu em Lisboa, pensou sem demora em elevar paralelamente a situação social de seu pai. Encontrou nele, porém, exigências tais que tornaram impossível a realização dos seus desejos. As negociações foram longas, muito delicadas, muito secretas. Tenho nas mãos toda essa correspondência, e posso dizer que nela o Conde mostra um tacto, uma prudência, uma previdência geniais. Seu pai, ao princípio, desejou que o Conde lhe fornecesse meios de abrir em Lisboa um grande estabelecimento de alfaiate. Isto era.14 naturalmente inaceitável. Como o Conde me disse muita vez, não podia passar, com o correio de ministro atrás, pela rua onde reluzisse a tabuleta «Abranhos, Alfaiate». Como conseguiria ele, na Câmara, aniquilar um adversário que lhe poderia responder: – «Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor seu pai me estragou inteiramente este par de calças e roubou-me na fazenda!

Era impossível esta permanente tortura moral. E o pai do Conde tanto o compreendeu, que escreveu (não cito textualmente, pois que nem a sua ortografia, nem a sua gramática poderiam ter lugar num livro correcto): – Se não queres que eu possua um estabelecimento do ofício em que me criei, que é honrado e me tem ajudado a viver, e à tua mãe, então o melhor é que eu vá para a tua companhia, para tua casa, onde tua mãe, que é tão económica e tão hábil nos arranjos, pode ser uma governanta útil e poupar a tua mulher todos os incómodos «dos azeites e vinagres». (Esta expressão é dele).

O Conde recusou com indignação. Realmente a exigência é curiosa. Virem aquele homem e aquela mulher de Penafiel, com os hábitos, os modos, as figuras, a fala de dois trabalhadores de Penafiel, viver numa casa onde se recebia a fidalguia de Lisboa, os representantes dos Reis estrangeiros, a flor da literatura, a Maioria! Absurdo! Se o Conde, como ele dizia, não fosse um homem público, poderia sacrificar-se a essa companhia plebeia. Mas como Estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer o arroz com a faca, a escabichar os dentes com as unhas, a perguntar às senhoras – então como vai essa bizarria? – com o seu catarro, cuja expectoração perpétua era repulsiva, só serviria para diminuir a autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento. Em nome dos interesses superiores do Estado, devia repelir aquela proposta. Se um dia tivesse a jantar o Ministro de Inglaterra ou de França, no momento de uma negociação delicada e de alto interesse para Portugal, como poderia impressionar os diplomatas estrangeiros, com o pai, ao lado, a tirar cera dos ouvidos?

Foi por isso que ele informou o pai de que só o receberia em sua casa, com a condição de nunca aparecer aos jantares ou às soirées. O velho, decerto mal aconselhado por intrigantes políticos, respondeu com uma carta (que, pelas razões dadas, não cito textualmente) em que lhe diz que, desde que o filho se envergonha de seu pai, todos os arranjos são inúteis, e que cada um siga o seu caminho; eu (diz ele) não posso, aos 55 anos, mudar os meus hábitos e o meu catarro: sou como sou; não tenho as maneiras de um elegante, mas tenho a minha honra e os meus sentimentos. Que meu filho jante na sala e me faça jantar na cozinha, não! Continua a ser Abranhos deputado, que eu continuarei a ser Abranhos alfaiate. Mas nem por isso deixo de ser tão homem de bem como tu.

Homem de bem! Não o era decerto, dando, pela sua ingrata obstinação, motivo a que – se um dia se soubesse, como se soube, este incidente – o Conde fosse insultado na imprensa e escarnecido na Câmara!

Esta resposta do pai desgostou muito o Conde; mas com uma bondade quase sobre-humana, escreveu-lhe novamente, remetendo-lhe 200$000 réis, e afiançando-lhe que se algum dia, por falta de trabalho ou doença, se encontrasse em necessidade, o avisasse logo, pois que, apesar da sua carta ofensiva, nunca ele, como filho cristão, perderia o respeito que lhe devia!

A esta carta tão nobre, tão filial, o velho alfaiate respondeu devolvendo a letra, nas dobras de um papel onde havia uma palavra única: – M....! – Não transcrevo a palavra

(que de resto a inteligência dos que me lêem logo compreenderá) porque me respeito, e nunca ponho nos meus livros essas obscenidades que se permitiu escrever o visionário autor dos Miseráveis, esse épico enfático de uma democracia estéril!

M....! Essa palavra foi para o Conde o desgosto grave da sua vida. Era evidente.15 que seu pai, perdendo o respeito próprio, propendia para a obscenidade! Boa razão tivera ele, pois, em não o admitir em sua casa, no convívio da sociedade mais raffinée de Portugal!

(continua...)

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