Por Eça de Queirós (1912)
Uma noite, em que havia um grande silêncio no arvoredo e no ar, porque caía a neve, ela sentiu um grande frio que lhe passava no rosto, e através do desmaio que a tomava, estendeu a mão, apalpando para dizer para sempre adeus ao seu homem. E os seus olhos vagos e lentos encontraram então os olhos do seu Cristóvão, que se erguera, embrulhado numa pele de cabra, e estava aos pés do catre, atento, e como esperando, num espanto. Moveu os lábios para lhe pedir que se deitassem se agasalhasse, mas só pode suspirar, desfalecida... E pareceu-lhe que, diante, o seu filho começava a crescer visivelmente; já os seus cabelos ruivos tocavam o teto da cabana; o colmo esgarçou, e, através da abertura, Cristóvão crescia para o céu mais alto que os pinheiros, já com a face perdida entre os flocos de neve; e tão feio e monstruoso que as estrelas fugiam pelo ar, como almas assustadas. Deu um grito. O pobre lenhador despertou, debruçando logo sobre ela, a tremer. A sua companheira parecia adormecida. Então Cristóvão veio lentamente em torno do catre, e pondo as mãos, de leve, sobre os cabelos que um suor umedecia, gritou:
— Ó mãezinha, mãezinha, não durmas!
Cristóvão falara! O seu filho falava! Um rubor de infinito contentamento subiu-lhe ao rosto macerado, que ficou imóvel, sorrindo: - e a boa fiandeira partiu desta terra para o além,
IV
A cerejeira na horta estava coberta de cerejas: o lenhador outra vez trabalhava nos soutos , desde o cantar da calhandra: - e a viúva de um carvoeiro da mata vinha, todos os dias, cuidar da cabana e guardar Cristóvão. Era uma velha muito magra e sombria, que surdia de entre os pinheiros, encostada a um bordão, acompanhada por um gato negro. Nos primeiros dias, a cada passo, agachada sobre o lume, ou fiando à porta, voltava para os membros imensos de Cristóvão com inquietação os seus olhinhos luzidios, que os grossos pelos das sobrancelhas cobriam. Aquele ser disforme, que o pai chamava “o menininho”, e que ela vinha guardar, enchia-a de espanto, quando erguia até à boca o enorme cântaro cheio de água, ou tapava toda a porta da horta, parado, a chupar o dedo, a olhar para o Sol. Debalde o bom lenhador lhe afiançara a sua mansidão a sua simplicidade: a velha serradeira temia aquela mansidão muda, como uma toca escura e sem ruído, de onde podia surtir uma fera. Mas quando, durante longos dias, ela o viu quieto sob a cerejeira, sorrindo às formigas que lhe trepavam pelas pernas já peludas, ou, encruzado diante da horta, pasmar, chupando um teto, para o fuso que ela fiava – a velha reconheceu a sua simplicidade, e considerou que ele era como um animal caseiro, porco gordo ou borrego, que pertencesse à choupana. Para não sentir mesmo pousados nela aqueles olhos azulados e sem brilho, e aquele corpo disforme atravancando a cabana, tapando a luz, empurrava-o para a horta, e lá lhe levava, ao bater do meio dia, a sopa e a ração de broa, numa grande malga, que pousava no chão: e Cristóvão ali passava os seus dias, sentado, remexendo a terra com os dedos lentos e vagos, seguindo o ramalhar das folhas, ou, a passos lentos, rente da sebe, alongava para os campos, para os arvoredos de além, o olhar pasmado e sem brilho, com a quietação do boi farto. A serradeira, no entanto, varria o chão, areava as ferragens do armário, batia o colchão do catre, ou sentada à porta fiava até que, às Trindades, soavam no caminho os guizos da égua branca, que o bom lenhador trazia à rédea.
Logo à porta a velha, apertando as mãos, contava como Cristóvão se conservava quieto, e tão bom, brincando na horta ou atento às histórias, que ela sabia, de fadas e de mouros. O lenhador, coçava a barba, contente: - e Cristóvão, diante da lareira, onde a lenha estalava, sorria, pasmadamente, sacudindo as mãos cheias de terra.
Quando os frios vieram, a serradeira, às vezes, ao lidar na cabana, gemia, esfregando os joelhos. Cristóvão arregalava para ela os olhos compadecidos. E um dia que ela coxeava, gemia mais, saindo para a fonte, Cristóvão timidamente tocou na asa do grosso cântaro de barro. murmurando, muito vermelho: “Eu vou”. Espantada, ela deixou, ficou à porta vendo Cristóvão desaparecer entre os olmos e logo voltar, subindo a vereda, sob a chuva fria, com o cântaro que lhe pesava menos no braço estendido que uma malga ligeira. Todo ele sorria, com um contentamento profundo. A velha limpou-lhe os cabelos molhados – e, pela vez primeira, desde que guardava a cabana, tomando Cristóvão como um ser humano, falou das dores dos seus pobres ossos, no seu homem que lhe deixara a velhice sem pão, na morte que vinha perto com uma grande foice. Mas a face que Cristóvão erguia para ela, agachado à lareira, voltara à imobilidade, sem alma e sem calor, de uma face feita de pedra. E foi para o seu velho gato, que tomara no regaço, não para Cristóvão, que a serradeira prolongou, no silêncio, os queixumes da sua velhice. Nessa tarde, porém, Cristóvão varreu a cabana com a vassoura que a velha, coxeando e gemendo, lhe metera nas mãos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.