Por Eça de Queirós (1874)
— O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Também sei! Amanhã faz favor de ir para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na fatura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita.
Macário queria abraçá-lo, estonteado, com lágrimas nos olhos, radioso.
— Bem, bem. Adeus!
Macário ia sair.
— Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
E indo a um pequeno armário trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga de Porto e biscoitos.
— Coma.
E sentando-se ao pé dele, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma lágrimas a correr-lhe pelo engelhado da pele.
De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. E Luísa começou a tratar do seu enxoval.
Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
Via o fim da sua vida preenchido, completo, radioso. Estava quase sempre em casa da noiva, e um dia andava-a acompanhando, em compras, pelas lojas. Ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente, nesse dia. A mãe tinha ficado numa modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.
O dia estava de Inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, profundo, luminoso, consolado.
— Que bonito dia! – disse Macário.
E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.
— Está! – disse ela. – Mas podem reparar; nós sós...
— Deixa, está tão bom...
— Não, não.
E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.
Macário disse-lhe:
— Queria ver anéis.
— Com pedras – disse Luísa – e o mais bonito.
— Sim, com pedras – disse Macário. – Ametista, granada. Enfim, o melhor.
E, no entanto, Luísa ia examinando as montras forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os anéis de armas, as finas alianças frágeis como o amor , e toda a cintilação de pesada ourivesaria.
— Vê, Luísa – disse Macário.
O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro da montra, um reluzente espalhado de anéis de ouro, de pedras, lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com a ponta dos dedos, ia-os correndo e dizendo:
— É feio. É pesado. É largo.
— Vê este – disse-lhe Macário.
Era um anel de pequenas pérolas.
— É bonito – disse ela. – É lindo!
— Deixa ver se serve – disse Macário.
E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.
— É muito largo – disse Macário. – Que pena!
— Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto amanhã.
— Boa idéia – disse Macário – sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade? As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E esses brincos? – acrescentou, indo ao fundo do balcão, a outra montra. – Estes brincos com um concha?
— Dez moedas – disse o caixeiro.
E, no entanto, Luísa continuava examinando os anéis, experimentando-os em todos os dedos, revolvendo aquela delicada montra, cintilante e preciosa.
Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, passando vagarosamente a mão pela cara.
— Bem – disse Macário, aproximando-se – então amanhã temos o anel pronto. A que horas?
O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.
— A que horas?
— Ao meio-dia.
— Bem, adeus – disse Macário. E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequenas estavam escondidas num regalo branco.
— Perdão! – disse de repente o caixeiro.
Macário voltou-se.
— O senhor não pagou.
Macário olha para ele gravemente.
— Está claro que não. Amanhã venho buscar o anel, paga amanhã.
— Perdão! – disse o caixeiro.– Mas o outro...
— Qual outro? – disse Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para o balcão.
— Essa senhora sabe – disse o caixeiro. – Essa senhora sabe.
Macário tirou a carteira lentamente.
— Perdão, se há uma conta antiga...
O caixeiro abriu o balcão, e com aspecto resoluto:
— Nada, meu caro Senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.
— Eu?! – disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.
— Que é? Que está a dizer?
E Macário, pálido, com dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro colericamente. O caixeiro disse então:
— Essa senhora tirou dali o anel. – Macário ficou imóvel, encarando-o. – Um anel com dois brilhantes. Vi perfeitamente. – O caixeiro estava tão excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente. – Essa senhora não sei quem é. E tirou-o dali...
Macário, maquinalmente, agarrou-lhe o braço, e voltando-se para Luísa com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Singularidades de uma Rapariga Loura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16623. Acesso em: 29 jun. 2026.