Por Eça de Queirós (1870)
— Sabe tudo! — disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços. Eu estava surpreendido: aquele homem conhecia o crime, sa bia que havia ali umcadáver! Só ele o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente ignorados aqueles sucessos lúgubres. Por consequência quem sabia onde estava o cadáver, quem tinha umachave da casa, quem vinha alta noite ao lugar do assassinato, quem tinha desmaiado vendose surpreendido, estava positivamente envolvido no crime...
— Quem lhe deu a chave? — perguntou o mascarado.O homem calou-se.
— Quem lhe falou nisto? Calou-se.- Que vinha fazer, de noite, às escondidas, a esta casa?
Calou-se.- Mas como sabia deste absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?... E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto im perceptível do expediente que ia tomar, acrescentou:-...nós e o senhor comissário.
O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletó e examinou-lhe os bolsos.Encontrou um pequeno martelo e um ma ço de pregos. — Para que era isto? — Trazia naturalmente isso, queria consertar não sei quê, em casa... um caixote...O mascarado tomou a luz, aproximou-se do morto, e por um movimento rápido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a lívida face do cadáver.- Conhece este homem?
O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o mor to um long o olhar, demorado e atento.Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistência im placável nos olhos dele, dominei-o, disse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:- Porque o matou?
— Eu? — gritou ele. — Está doido! Era uma resposta clara, franca, natural, inocente.- Mas porque veio aqui? — observou o mascarado. — Como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martelo? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, oudaqui a uma hora está no segredo, e daqui a um mês nas galés. Chame os outros -disse ele para mim.
— Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! -gritou o desconhecido.
Esperámos; mas retraindo a voz, e com um a entoação demora da, como quem dita: — A verdade — prosseguiu — é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, númerotantos...
Eu tive um movimento ávido, curioso, interrogador. Ia enfim saber onde estava! Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôs-lhe a mão aberta sobre aboca,comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:
— Se diz onde estamos, mato-o.O homem fitou-nos: compreendeu evidentemente que eu também estava ali, sem saber onde, por um mistério; que os motivos da nossa presença eram também suspeitos, e que por consequência não éramos empregados da polícia. Esteve um momento calado e acrescentou:- Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui?
— Está preso — gritou o mascarado. — Vá chamar os outros, doutor. É o assassino.Esperem, esperem — gritou ele. — Não compreendo! Quem são os senhores? Supus que eram da polícia... São talvez.., disfar çam para me surpreender! Eu não conheço aquele homem, nunca o vi. Deixem-me sair... Que desgraça!- Este miserável há-de falar, ele tem o segredo! — bradava o mascarado.
Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentara doçura, a astúcia. Ele tinhaserenado, falava com inteligência e com faci lidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Viseu. O mascarado escutava-nos, silencio so e atento. Eu, falando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Ele pedia-me que o salvasse, chamava-me seu amigo. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era fácil surpreender a verdade dos seus actos. Com um mo do íntimo, confidencial, fizlhe perguntas aparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de análise. Ele, comuma boa-fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.
— Ora — disse-lhe eu -, uma coisa me admira em tudo isto.- Qual? — E que não tivesse deixado sinais o arsénico... — Foi ópio — interrompeu ele, com uma simplicidade infantil.Erguime de salto. Aquele homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.- Sabe tudo — disse eu ao mascarado.
— Foi ele — confirmou o mascarado convencido. Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:- A comédia acabou, meu amigo, tire a sua máscara, aperte mo-nos a mão, dêmos parte à polícia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que ver nestenegócio.
— Decerto que não. Este homem é o assassino. E voltando-se para ele com um olhar terrível, que flamejava debaixo da máscara:- E porque o matou?
— Matei-o... — respondeu o homem.- Matou-o — disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou — para lhe roubar 2300 libras em bank-notes, que aquele homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que es tavam monogramadas duas letras de prata, que eram as iniciais do seunome.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.