Por Eça de Queirós (1925)
Margarida foi à porta, e ele ficou com o coração aos pulos. A rapariga voltou correndo, dizendo com o tom com que anunciaria a aparição da Providência – castigadora e reparadora:
— Meu Senhor, é o sr. Neto!
CAPÍTULO IV
Neto entrou . Ao ver a mesa posta, com o grande empadão, o fiambre e Godofredo de guardanapo entalado no colarinho, e com a garrafa ao lado, Neto ficou junto da porta, com um ar de surpresa, o chapéu numa das mãos, a bengala na outra. Terminou pôr murmurar, com uma ponta de amargura:
— Está bem, vejo que não falta o apetite.
Godofredo erguera-se logo, tomara uma vela de cima do aparador, dirigira-se à sala de visitas. Mas Neto não consentiu.
— Não senhor, temos tempo de falar, acabe você de jantar...
Mas Alves depois de levar à boca uma colher de sopa repelira o prato, tocou a campainha ao lado. Neto no entanto pousava, vagarosamente, o seu chapéu, a sua bengala, numa cadeira – enchendo o silêncio que se fizera, com lentidão dos seus movimentos. Era um homenzarrão, que fora nos seus tempos belo homem, e conservava ainda um bom perfil, a que a extrema palidez dava uma finura e distinção. Sobre a calva tinha duas repas de cabelo, laboriosamente e singularmente arranjadas: o bigode grisalho parecia cortado rente, a direito, duma só tesourada: e os seus menores movimentos tinham tanto uma afetação de dignidade, e de seriedade, que mesmo, nesse momento, tirando devagar as luvas, parecia estar cumprindo um ato importante da vida oficial.
A criada no entanto trouxera o cozido: e, como ela se demorava em volta da mesa, retardando, arranjando, na esperança de ouvir uma palavra, Neto, com um ar de homem de sociedade, mostrou indiferença, um ar natural, dizendo que estava um calor de rachar.
— Muito calor – repetiu Godofredo, que, desde a entrada de Neto, recostado na cadeira, puxando a ponta do bigode, a outra mão no bolso, não levantara os olhos da borda da mesa. Pôr fim a criada saiu, com ordem de esperar pôr outro toque da campainha “para trazer o resto”. E logo Godofredo ergueu-se, a fechar a porta.
Então, Neto, vendo que podia falar livremente, sentou-se à borda duma cadeira, esteve um momento esfregando ambos os joelhos com ambas as mãos, e começou num tom lento, com palavras estudadas, de intenção eloqüente, para impressionar.
— Eu cumpri o meu dever de pai...
Esperou um momento, olhando o genro, uma interrupção, uma palavra. Godofredo servia-se de arroz. Neto continuou:
— Cumpri o meu dever de pai, e estou-o cumprindo ainda nesse momento que é solene... Logo que recebi a carta, logo que vi que havia cá na casa desinteligência, vim buscar a minha filha, para dar o tempo, para que se pudessem trocar explicações, para que se desembrulhasse a meada... Quando duas pessoas não estão de acordo, melhor é que cada um se safe para seu lado. De longe, a sangue-frio, trata-se tudo melhor. Cara a cara, palavra puxa palavra, vai tudo pela água abaixo...
As palavras solenes iam-lhe escasseando. E acumulando as expressões vulgares, excitado, falou em cancaborrada.
— Enfim – concluiu ele, o que eu quero saber é o que significa todo este escândalo?
Godofredo ouvira em silêncio, picando vagarosamente grãos de arroz. Estava decidido a não se alterar, a ser respeitoso e rígido. Desprezava o sogro, pôr histórias equívocas que sabia dele, sobretudo pelos seus sujos amores com a cozinheira. Aquele ar solene não o impressionava: e com duas ou três palavras secas ia facilmente dominá-lo.
— O escândalo não é mais nem menos, do que eu lhe escrevi. Encontrei sua filha com um homem, e mandei-lhe para casa.
O Neto estremeceu. Aquele tom seco pareceu-lhe um insulto. Ergueu-se, com o olho aceso, a calva irritada.
— Ora essa! Ora essa! E se eu não a quisesse em casa? Essa não está má! Então casa-se com uma filha-família, tem-na quatro anos, e, ao fim de quatro anos, agora, minha menina, volta para casa de teu pai? Essa não está má! E se eu a não quisesse em casa, meu caro senhor, e se eu a não quisesse em casa?
Bravejava, esquecidas todas as preocupações com uma voz que se devia ouvir na cozinha.
Muito friamente Godofredo disse:
— Nesse caso ficava na rua.
Isto acabou de enfurecer o Neto.
— Na rua?
— Perfeitamente. Desonrou-me, desonrou a minha casa, aqui não a consinto... Faça as suas malas, adeus! Se o pai, se ninguém a recebe, está claro que fica na rua.
Neto não podia acreditar nesta teima implacável. Tinha cruzado os braços, contemplava o genro, com um olhar que chamejava.
— Homem, deixe-me olhar para si. Deixe-me olhar para si que o senhor é um monstro. Então quer o senhor dizer que abandonava sua mulher, deixava na rua, sem um canto para se abrigar.
Tanta palavra torturava Godofredo. Era como o remexer numa ferida que ainda sangrava. Ergueu-se, querendo dizer ainda uma palavra, acabar a discussão. Mas o Neto não o deixou abrir os lábios, gritou:
— E não se põe uma mulher fora de casa, pôr que se encontrou só a receber uma visita!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.