Por Camilo Castelo Branco (1889)
Nos dias imediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os perigos da minha fraqueza, e quis ser forte. Resolvi não vê-lo mais : revesti-me de um orgulho digno da minha imodesta superioridade às outras mulheres : sustentei este caráter dois dias ; e, ao terceiro, era fraca como todas as outras.
Eu já não podia divorciar-me da imagem daquele homem, daquelas núpcias infelizes que meu coração contraíra. O meu instinto não era mau ; porque a educação tinha sido boa ; e, não obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a minha mãe os meus inocentíssimos desejos, senti-me então, com mágoa minha, rebelde, e capaz de conspirar contra a minha família.
A freqüente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indiferente a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãe a tal respeito, respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão pressentiu a necessidade de matar aquela inclinação nascente, e expôs-me um quadro feio dos costumes péssimos de Vasco, e o conceito público em que era tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me oferecia em namoro. Fui altiva com o meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não tinham contraído a obrigação de se consultarem.
Meu irmão sofreu ; eu também sofri ; e, passado o momento da exaltação, quis cerrar a ferida que abrira naquele coração, desde a infância identificado com as minhas vontades.
Este sentimento era nobre ; mas o do amor não era inferior. Se eu pudesse reconciliá-los ambos ! Não podia, nem sabia fazê-lo ! Uma mulher, quando principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com aparências, nem calcula os prejuízos que pode evitar com um pouco de impostura. Eu fui assim. Deixe-me ir abandonada à correnteza da minha inclinação ; e, quando forcejei por me tornar tranquila, à isenção da minha alma, não pude vencer a corrente.
Vasco de Seabra perseguia-me : as cartas eram incessantes, e a grande paixão que elas exprimiam não era ainda igual à paixão que me faziam.
Meu irmão quis tirar-me de Lisboa, e minha mãe instava pela saída, ou pela minha entrada a toda a pressa nas Salésias. Informei Vasco das intenções de minha família.
No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno de outra sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãe, e foi urbanamente repelido. Eu soube-o, e torturei-me ! Não sei do que seria então capaz a minha alma ofendida ! Sei que foi capaz de tudo que pode caber em forças de uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira, sozinha consigo, e conjurada a perder-se por elas.
Vasco, irritado num nobre estímulo, escreveu-me, como quem me pedia a mim a satisfação dos desprezos da minha família. Respondi-lhe que lha dava plena, como ele a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da desonra, e muito cedo entraria nela com a minha honra ilibada. Que desgraça ! Naquele tempo até as pompas de estilo me seduziam !… Respondi que sim, e cumpri.
Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciência é curta. Até ao correio que vem.
Henriqueta.”
CAPÍTULO VI
Carlos relera, com sôfrega ansiedade, a singela expansão de uma alma que, talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho de um martírio surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que pudesse consolá-la. Afeita a gemer no silêncio, e na solidão, tornava-se como egoísta das suas dores, e supunha que divulgá-las era esfolhar a mais bela flor da sua coroa de mártir. Escreveu, porque a sua carta era um mito de segredo e publicidade ; porque a sua aflição não rastejava pelos queixumes lamuriantes e triviais de um grande número de mulheres, que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das segundas núpcias ; escreveu enfim, porque a sua dor, sem desonrar-se com uma publicidade estéril, interessava um coração, esposava uma simpatia, um sofrimento simultâneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre admiração ! Há mulheres vaidosas - deixem-me assim dizer - da fidalguia do seu sofrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquela angústia represada que só pode extravasar os sobejos do seu fel em uma carta anônima. Lagrimosas para si, e fechadas no círculo estreito que a sociedade lhes traça como o compasso inexorável das conveniências, essas sim, são duas vezes anjos despenhados !
Quem pudesse receber na taça de suas lágrimas algumas que aí se choram, e que a opulência material não enxuga, experimentaria consolações de um sabor novo. O padecimento que se esconde impõe o respeito religioso do augusto mistério desta religião universal, simbolizada pelo sofrimento comum. O homem que pudesse verter uma gota de orvalho na aridez de algum coração, seria o sacerdote providencial no tabernáculo de um espírito superior, que velasse a vida da terra para que tamanhas agonias não fossem estéreis na vida do céu. Não há na terra mais gloriosa missão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.