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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Tornei a fazer-lhe outra prédica – prosseguiu Pantaleão. – Disse-lhe tudo quanto me lembrou em termos comedidos, não sei se me entende? Não acreditei que ela fosse honrada e inocente por várias razões. Ouviu-me tudo com má cara, e pôs-se de pé, e disse que, se lhe não queríamos mais nada, que podíamos ir à nossa vida. Veja você que atrevida má criação a da tal senhora! Impor deste modo três amigos de seu marido, que iam ali tratar dum negócio muito sério! Coisa assim nunca me aconteceu na minha vida; e só pela honra dum amigo velho é que se pode tragar destes bocados! À vista disto, a nossa comissão estava acabada. Não tínhamos que fazer ali. Pegamos nos chapéus, e nas bengalas, e saímos. Aqui tem o acontecido. Você fará o quiser, compadre.

Hermenegildo começou a passear na sala, jogando de braços por maneira que parecia ensaiar-se com eles para esvoaçar. Os amigos contemplavam-no com umas caras tristes, quando um criado entrou com uma bandeja, na qual transparecia em cristais a opala de antiquíssimos vinhos, lardeados de marmelada, e outras frutas açucaradas que negaceavam o apetite. O bizarro dono da casa convidou os quatro atribulados a honrarem a sua garrafeira, e sem esforço obteve que todos, exceto Fialho, rebatessem os ímpetos da sua angústia com alguns tragos de licor que investe os ânimos de força reagente, e infunde estoicismo nas mais sandias almas.

― Compadre, beba deste – disse Atanásio sobpondo ao nariz do amigo aflito o cálix aromático.

― Tire isso p’ra lá! – refusou Fialho, sacudindo a cabeça, e fechando os olhos, talvez, à tentação. E resmoneou, entre trágico e cômico:

― Se fosse veneno, metia-o no corpo...

― Não seja asno! – acudiu com hombridade Joaquim Antônio Bernardo – Pois você ainda está nessa!... Matarse por causa de mulheres! Está a ler o nosso homem! – ajuntou o marido da maiata, gargalhando com aplauso dos circunstantes, que bascolejavam o vinho e o riso entre as mandíbulas. – Engula esse nó que tem nas goelas, e beba, amigo Fialho! Mulheres!... Com que então você, com amigos e fortuna, era capaz de tomar veneno p’rá mor duma desaustinada de mulher que se portou mal! Ela que se mate, se quiser; e você viva regaladamente com cento e noventa contos que tem. Faça de conta que ela morreu, e trate de arranjar outra...

― Ou duas, que é melhor – emendou Atanásio.

― Ou três, que é mais peitoral – ampliou Pantaleão, pondo a mão suavemente nos gorgomilos por onde ia passando um damasco.

O dono da casa, invejoso do espírito dos seus amigos, acrescentou:

― Quatro, quatro, para não ser pernão... O dado é sete fêmeas para cada macho.

― Macho será você! – replicou Atanásio com a boca a disbordar de marmelada.

Eis aqui o caixilho lutuoso em que enquadrava a agonia de Hermenegildo. Por pouco não descambava em orgia o tribunal de homens congregados para julgar a desonra de Ângela e salvar a dignidade do marido. Falavam todos a um tempo, alvitrando planos tendentes a evitar que a esposa infiel tivesse parte nos haveres do brasileiro. Para poder entrar nesta seção importante com energia, Fialho sopeteou duas bolachas americanas num cálix do de 1805, e pôs a mão instintivamente no bucho aquecido, e capaz de competir em calor com o coração vizinho. Os amigos, fazendo-o beber segundo cálix, aplaudiam o seu triunfo, e juravam que, ao terceiro, a honra do seu amigo ficaria lavada como as goelas.

Após longos debates, em que todos falavam à mistura, convieram em que Fialho, como comerciante que era, se obrigasse por escritura a dividas excedentes ao valor dos seus bens imóveis, e desde logo alienasse os títulos bancários, e se cozesse com o dinheiro. A soberana razão que pôs os cinco alvitristas neste acordo, deve-se a Atanásio, o qual raciocinara desta laia:

― Amigo e compadre Fialho, não há que duvidar: sua mulher tem um homem a quem deu do dinheiro. Este homem há de aconselhá-la a separar-se de você para se dividirem os bens, percebe você? Se você os tiver, que remédio há senão reparti-los? O maior logro e castigo que você pode pregar a ela e mais ao patife é não ter nada que repartir. Hem?

A resposta geral foi um brado uníssono. E logo, no afogo do entusiasmo, sacrificaram a Quarta garrafa e uma bandeja de pastéis de Santa Clara.

― Mas se ela não quiser sair de casa? – perguntou Barrosas, acalmado o barulho.

― Você já não tem casa. A sua casa está vendida. Um de nós, quando o compadre quiser, vai tomar posse, e sua mulher recebe intimação judicial para despejo, percebe você? – respondeu enfaticamente Atanásio.

― Diz você bem, compadre – obtemperou Fialho – que eu tenho procuração dela em branco. Faz-se escritura da venda da casa. E nesse caso é preciso avisá-la que se mude quanto antes. Vamos ver se ela sai ao bem.

― Duvido; - atalhou Joaquim Antônio Bernardo – aquilo é mulher finória e soberba. Sem ser por justiça, não a põe o amigo fora de casa.

(continua...)

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