Ao padre Damaso da Silva, parente do poeta, e seu oposto, homem desbocado e presunçoso, com grandes impulsos de ser vigário, sendo por algum tempo em Nossa Senhora do Loreto GREGóRIO DE MATOS (1696) Poema satírico atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no fim do século XVII. Preservado em manuscritos e publicado apenas em edições críticas, censura com ironia o comportamento vaidoso do padre Damaso da Silva, parente do poeta. Dâmaso, aquele madraço,que em pés, mãos, e mais miúdospode bem dar seis, e ásao major Frisão de Hamburgo:Cuja boca é mentideiro,onde acode todo o vulgoa escutar sobre la tardelas mentiras como punho:Mentideiro freqüentadode quantos senhores burrosperdem o nome de limpospela amizade de um sujo.Cuja língua é relaçãoaonde acham os mais purospara acusar um fiscalpara cortar um verdugo.Zote muito parecidoaos vícios todos do mundo,pois nunca os alheios corta,sem dar no seu próprio escudo:Santo Antônio de baeta,que em toda a parte do mundoos casos, que sucederam,viu, e foi presente a tudo:O Padre papa jantares,hóspede tão importuno,que para todo o banquetetraz sempre de trote o bucho:Professo da providência,que sem lograr bazaruco,para passar todo um anonem dous vinténs faz de custo:Que os amigos o sustentam,e lhe dão como de juroo jantar, quando lhes cabea cada qual por seu turno.Essa vez, que tem dinheiro,que é de sete em sete lustros:três vinténs com um tostão,ou dous tostões quando muito:Com um vintém de bananas,e de farinha dous punhos,para passar dia, e meiotem certo o pão, e conduto:Lisonjeiro sem recatoadulador sem rebuço,que por papar-lhe um jantarde um sacristão faz um Núncio:De um Tambor um General,um Branco de um Mamaluco,de uma senzala um palácio,e um galeão de um pantufo.Em passando a ocasião,tendo já repleto o bucho,desanda co'a taramela,e a todos despe de tudo:Outro sátiro de Esopo,Que co mesmo bafo astutoEsfriava o caldo quente,E aquentava o frio punho:O Zote, que tudo sabeO grande JurisconsultoDos Litígios fedorentosDesta cidade monturo:O Bártolo de improviso,O subitâneo Licurgo,Que anoitece um sabe-nada,E amanhece um sabe-tudo:O Letrado grátis dato,e o que com saber infusoquer ser Legista sem mestre,canonista sem estudo:Agraduado de doutona academia dos burros,que é braba universidadepara doutorar brandúzios:desaforado sem susto,entremetido sem riso,e sem desar abelhudo:Filho da puta com dita,alcoviteiro sem lucro,cunhado do Mestre-Escola,parente que preza muito.Fraquíssimo pelas mãos,e valentão pelo vulto,no corpo um grande de Espanha,no sangue escória do mundo.Este tal, de quem falamos,como tem grandes impulsosde ser batiza-crianças,para ser soca-defuntos:A Majestade d'El-Reitem já com mil esconjurosordenado, que o não colemnem numa igreja de juncos.Ele por matar desejosfoi-se ao adro devolutoda Senhora do Loreto,onde está Pároco intruso:Ouvir é um grande prazer,e vê-lo é um gosto sumo,quando diz "os meus fregueses”sem temor de um abrenuntio.Item é um grande prazernas manhãs, em que madrugovê-lo repicar o sino,para congregar o vulgo.E como ninguém acode,se fica o triste mazuloem solitária estaçãodizendo missa aos defuntos:Quando o Frisão considero,o menos que dele cuido,é ser Pároco bonecofeito de trapos imundos.