Vive, dizes, no presente FERNANDO PESSOA (1920) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Vive, dizes, no presente; Vive só no presente. Mas eu não quero o presente, quero a realidade; Quero as cousas que existem, não o tempo que lhes damos. O que é o presente? É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. Eu quero só a realidade, as cousas sem presente. Não quero incluir o tempo no meu haver. Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas. Não quero separá-las de elas-próprias, tratando-as por presentes. Eu nem por reais as devia tratar. Eu não as devia tratar por nada. Eu devia vê-las, apenas vê-las; Vê-las até não poder pensar nelas, Vê-las sem tempo, nem lugar, Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.