O conto antigo da Gata Borralheira FERNANDO PESSOA (1919) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O conto antigo da Gata Borralheira, O João Ratão e o Barba Azul e os 40 ladrões, E depois o Catecismo e a história de Cristo E depois todos os poetas e todos os filósofos; E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos, O sol havia lá fora em dias de destino, E por cima da leitura dos poetas as árvores faziam sombra... Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade. Que a lenha ardida, exatamente porque ardeu, Que o sol dos dias de destino, porque já não há, Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) Que disto tudo só ficou o que nunca foi: Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente.