Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável FERNANDO PESSOA (1917) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, Porque para o meu ser adequado à existência das cousas O natural é o agradável só por ser natural. Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, Como aceito o frio excessivo no alto do inverno — Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita, E encontra uma alegria no facto de aceitar — No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável. Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida? O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço, Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime, Da mesma inevitável exterioridade a mim, Que o calor da terra no alto do verão E o frio da terra no cimo do inverno. Aceito por personalidade. Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos, Mas nunca ao erro de querer compreender de mais, Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência, Nunca ao defeito de exigir do mundo Que fosse qualquer cousa que não fosse o mundo.