No dia brancamente nublado entristeço quasi a medo FERNANDO PESSOA (1917) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. No dia brancamente nublado entristeço quasi a medo E ponho-me a meditar nos problemas que finjo... Se o homem fosse, como deveria ser, Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais, Animal direto e não indireto, Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às cousas, Outra e verdadeira. Devíamos haver adquirido um sentido do «conjunto», Um sentido, como ver e ouvir, do «total» das cousas E não, como temos, um pensamento do «conjunto», E não, como temos, uma ideia do «total» das cousas. E assim — veríamos — não teríamos noção do conjunto ou do total, Porque o sentido de «total» ou de «conjunto» não seria de um «total» ou de um «conjunto» Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes. O único mistério do Universo é o mais e não o menos. Percebemos de mais as cousas — eis o erro e a dúvida. O que existe transcende para baixo o que julgamos que existe. A Realidade é apenas real e não pensada. O Universo não é uma ideia minha. A minha ideia de Universo é que é uma ideia minha. A noite não anoitece pelos meus olhos. A minha ideia de noite é que anoitece por meus olhos. Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos A noite anoitece concretamente E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso. Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade. Mas, como a essência do pensamento não é ser dito, mas ser pensado, Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença. O espelho reflete certo; não erra porque não pensa. Pensar é essencialmente errar. Errar é essencialmente estar cego e surdo. Estas verdades não são perfeitas porque são ditas, E antes de ditas, pensadas: Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias, Na negação afirmativa de afirmar qualquer cousa. A única afirmação é ser, E só o afirmativo é o que não precisa de mim...