A manhã raia. Não: a manhã não raia FERNANDO PESSOA (1917) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. A manhã raia. Não: a manhã não raia. A manhã é uma cousa abstrata, está, não é uma cousa. Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui. Se o sol matutino dando nas árvores é belo, É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol» Como o é se lhe chamarmos a manhã, Por isso não há vantagem em pôr nomes errados às cousas, Nem mesmo em lhes pôr nomes alguns.