Leram-me hoje S. Francisco de Assis FERNANDO PESSOA (1917) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Leram-me hoje S. Francisco de Assis. Leram-me e pasmei. Como é que um homem que gostava tanto das cousas, Nunca olhava para elas, não sabia o que elas eram? Para que hei de eu chamar minha irmã à água, se ela não é minha irmã? Para a sentir melhor? Sinto-a melhor bebendo-a do que chamando-lhe qualquer cousa... Irmã, ou mãe, ou filha. A água é a água, e é bela por isso. Se eu lhe chamar minha irmã, Ao chamar-lhe minha irmã, vejo que o não é E que se ela é a água o melhor é chamá-la água Ou, melhor ainda, não lhe chamar cousa nenhuma, Mas bebê-la, senti-la nos pulsos, olhar para ela E isto sem nome nenhum.