Ontem o pregador de verdades dele FERNANDO PESSOA (1914) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Ontem o pregador de verdades dele Falou outra vez comigo. Falou do sofrimento das classes que trabalham (Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre). Falou da injustiça de uns terem dinheiro, E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer, Ou se é só fome da sobremesa alheia. Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se. Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros! Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles. Ela não se cura de fora, Porque sofrer não é ter falta de tinta Ou o caixote não ter aros de ferro! Haver injustiça é como haver morte. Eu nunca daria um passo para alterar Aquilo a que chamam a injustiça do mundo. Mil passos que desse para isso Eram só mil passos. Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda, E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho. Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?